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Salmo 35: texto completo, significado e como ler as palavras duras

Pessoa sentada sozinha num banco de pedra num pátio antigo, de costas, olhando para a luz que entra por uma arcada
Imagem ilustrativa

O Salmo 35 é a oração de alguém acusado e perseguido sem motivo, que pede a Deus que defenda a sua causa. Começa com “Disputa, SENHOR contra os meus adversários” e alterna pedidos de justiça, desabafos fortes e promessas de louvor. Abaixo está o texto completo, seguido de como ele se organiza, de como ler as frases duras no seu contexto e do que o salmo não promete.

Sobre o número: a Bíblia Livre segue a numeração hebraica, e por isso este é o Salmo 35. Algumas Bíblias católicas usam a numeração grega e latina e trazem o mesmo texto como Salmo 34. Não confunda: o Salmo 34 da Bíblia Livre é outro texto.

Salmo 35 completo

Salmo de Davi: 1 Disputa, SENHOR contra os meus adversários; luta contra os que lutam contra mim. 2 Pega os teus pequeno e grande escudos, e levanta-te em meu socorro. 3 E tira a lança, e fecha o caminho ao encontro de meus perseguidores; dize à minha alma: Eu sou tua salvação. 4 Envergonhem-se, e sejam humilhados os que buscam matar a minha alma; tornem-se para trás, e sejam envergonhados os que planejam o mal contra mim. 5 Sejam como a palha perante o vento; e que o anjo do SENHOR os remova. 6 Que o caminho deles seja escuro e escorregadio; e o anjo do SENHOR os persiga. 7 Porque sem motivo eles esconderam de mim a cova de sua rede; sem motivo eles cavaram para minha alma. 8 Venha sobre ele a destruição sem que ele saiba de antemão; e sua rede, que ele escondeu, que o prenda; que ele, assolado, caia nela. 9 E minha alma se alegrará no SENHOR; ela se encherá de alegria por sua salvação. 10 Todos os meus ossos dirão: SENHOR, quem é como tu, que livras ao miserável daquele que é mais forte do que ele, e ao miserável e necessitado, daquele que o rouba? 11 Levantam-se más testemunhas; exigem de mim coisas que não sei. 12 Ele retribuem o bem com o mal, desolando a minha alma. 13 Mas eu, quando ficavam doentes, minha roupa era de saco; eu afligia a minha alma com jejuns, e minha oração voltava ao meu seio. 14 Eu agia para com eles como para um amigo ou irmão meu; eu andava encurvado, como que de luto pela mãe. 15 Mas quando eu vacilava, eles se alegravam e se reuniam; inimigos se reuniam sem que eu soubesse; eles me despedaçavam em palavras, e não se calavam. 16 Entre os fingidos zombadores em festas, eles rangiam seus dentes por causa de mim. 17 Senhor, até quando tu somente observarás? Resgata minha alma das assolações deles; minha única vida dos filhos dos leões. 18 Assim eu te louvarei na grande congregação; numa grande multidão eu celebrarei a ti. 19 Não se alegrem meus inimigos por causa de mim por um mau motivo, nem acenem com os olhos aquele que me odeiam sem motivo. 20 Porque eles não falam de paz; mas sim, planejam falsidades contra os pacíficos da terra. 21 E abrem suas bocas contra mim, dizendo: Ha-ha, nós vimos com nossos próprios olhos! 22 Tu, SENHOR, tens visto isso; não fiques calado; SENHOR, não fiques longe de mim. 23 Levanta-te e acorda para meu direito, Deus meu, e Senhor meu, para minha causa. 24 Julga-me conforme a tua justiça, SENHOR meu Deus; e não deixes eles se alegrarem de mim. 25 Não digam eles em seus corações: Ahá, vencemos, alma nossa! nem digam: Nós já o devoramos! 26 Que eles se envergonhem, e sejam juntamente humilhados os que se alegram pelo meu mal; vistam-se de vergonha e confusão os que se engrandecem contra mim. 27 Cantem de alegria e sejam muito contentes os que amam a minha justiça; e continuamente digam: Seja engrandecido o SENHOR, que ama o bem-estar de seu servo. 28 E minha língua falará de tua justiça, louvando a ti o dia todo.

Salmo 35.1-28.

Bíblia Livre (BLIVRE), © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, 2018, licença Creative Commons Atribuição 4.0 Brasil.

Um lamento que pede justiça

O título atribui o salmo a Davi. O texto não diz em que situação ele foi escrito, mas descreve bem a situação de quem reza: falsas testemunhas (versículo 11), gente que retribui o bem com o mal (versículo 12), zombaria em festas (versículo 16), acusações sem motivo (versículos 7 e 19).

É um salmo de lamento, ou súplica. Bento XVI, na audiência geral de 22 de junho de 2011, explicou que, na súplica, quem reza descreve a Deus a sua situação de angústia e de perigo “na confiança de ser ouvido”. E acrescentou que, já no lamento, pode aparecer algo do louvor, que se torna explícito quando a ajuda chega.

O Salmo 35 é um exemplo claro disso. A linguagem de tribunal aparece logo no começo: “Disputa, SENHOR”, isto é, defende a minha causa. No versículo 23 ela volta: “acorda para meu direito”. Mais do que uma vingança, o salmista pede que Deus seja o juiz.

Três rodadas que terminam em louvor

O salmo pode ser lido em três partes. Cada uma começa com o problema e termina com uma promessa de louvor.

Versículos 1 a 10: o pedido de defesa

O salmista pede que Deus pegue escudo e lança e entre na luta por ele. Pede que os perseguidores fiquem envergonhados e sejam como palha ao vento. A parte termina com alegria: “Todos os meus ossos dirão: SENHOR, quem é como tu”, aquele que livra o pobre do mais forte.

Versículos 11 a 18: a traição

Aqui está o trecho mais pessoal. Os acusadores são pessoas por quem o salmista rezou e jejuou quando estavam doentes. Ele as tratava como amigos ou irmãos e andava de luto por elas. Quando ele vacilou, foram elas que se reuniram para zombar. A parte termina com a promessa de louvar a Deus “na grande congregação”.

Versículos 19 a 28: o pedido de julgamento

A última parte insiste: “Tu, SENHOR, tens visto isso; não fiques calado”. O salmista pede que Deus o julgue segundo a justiça dele, e não segundo as acusações. O salmo termina com os amigos da justiça cantando e com a língua do salmista falando da justiça de Deus “o dia todo”.

Como ler as palavras duras

Os versículos 4 a 8 e 26 pedem que os inimigos sejam envergonhados, perseguidos pelo anjo do SENHOR e presos na própria rede. Quem lê hoje pode estranhar. O contexto ajuda.

Os salmos não escondem sentimentos

João Paulo II, na audiência geral de 28 de março de 2001, lembrou que os salmos expressam também o sofrimento intenso, o pedido de ajuda e de justiça, que às vezes acabam “em cólera e imprecações”. Imprecação é o pedido de que o mal caia sobre alguém. O papa disse que nos salmos o ser humano “encontra-se a si próprio completamente”. O Salmo 35 dá voz à revolta de quem foi traído. Não finge que ela não existe.

O sentido dessas imprecações

Em outra audiência geral, de 5 de novembro de 2003, João Paulo II explicou que as imprecações típicas do livro dos Salmos têm a finalidade de afirmar de forma viva “a hostilidade ao mal, a opção pelo bem” e a certeza de que Deus intervém na história contra a injustiça. O alvo, no Salmo 35, não é um desafeto qualquer. São falsas testemunhas, pessoas que, segundo o versículo 20, “não falam de paz” e “planejam falsidades contra os pacíficos da terra”.

A justiça fica com Deus

O salmista não arma uma vingança. Tudo o que ele diz é dito a Deus, como pedido. No Novo Testamento, São Paulo vai na mesma direção e dá um passo além:

19 Não vos vingueis por vós mesmos, amados. Em vez disso, dai lugar à ira divina, porque está escrito: A mim pertence a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor. 20 Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber. Pois, quando fizeres isto, estarás amontoando brasas de fogo sobre a cabeça dele. 21 Não sejas vencido pelo mal, mas vence o mal com o bem.

Romanos 12.19-21.

Bíblia Livre (BLIVRE), © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, 2018, licença Creative Commons Atribuição 4.0 Brasil.

Para os cristãos, o Salmo 35 se lê junto com esse texto: entregar a causa a Deus e não devolver o mal com o mal.

O que o Salmo 35 não é

O Salmo 35 contém pedidos duros contra os perseguidores, inclusive de destruição no versículo 8. Na leitura cristã proposta aqui, esses pedidos são lidos junto com Romanos 12: entregar a justiça a Deus e recusar a vingança pessoal. O salmo não deve ser tratado como uma fórmula para fazer mal a alguém. O salmo também não promete que a pessoa vai ganhar uma disputa, um processo ou uma briga. Quem enfrenta uma acusação, uma ameaça ou uma situação de violência precisa também procurar ajuda concreta, de advogados, autoridades ou pessoas de confiança. A oração pode acompanhar esse caminho; não o substitui.

“Odeiam sem motivo”: o salmo no Evangelho

O versículo 19 fala dos que “me odeiam sem motivo”. Uma expressão parecida aparece no Salmo 69:

4 Os que me odeiam sem motivo são mais numerosos que os cabelos de minha cabeça; são poderosos os que procuram me arruinar, os que por falsidades se fazem meus inimigos; tive que pagar de volta aquilo que não furtei.

Salmo 69.4.

Bíblia Livre (BLIVRE), © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, 2018, licença Creative Commons Atribuição 4.0 Brasil.

No Evangelho de João, Jesus aplica essas palavras a si mesmo, falando aos discípulos:

25 Mas isto é para que se cumpra a palavra que está escrita em sua Lei: Sem causa me odiaram.

João 15.25.

Bíblia Livre (BLIVRE), © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, 2018, licença Creative Commons Atribuição 4.0 Brasil.

Assim, a figura do justo perseguido sem motivo, que no salmo pede justiça a Deus, ganha para os cristãos o rosto de Jesus, odiado sem causa.

Os versículos mais citados

“Dize à minha alma: Eu sou tua salvação” (versículo 3)

No meio do pedido de defesa, o salmista quer ouvir uma palavra de Deus. Mais do que vencer, ele quer a certeza de que Deus está do lado dele.

“Quando ficavam doentes, minha roupa era de saco” (versículo 13)

O versículo seguinte compara essa atitude ao luto pela própria mãe. O trecho mostra o quanto o salmista se importava com quem depois o traiu. É um retrato de amizade quebrada.

“Senhor, até quando?” (versículo 17)

É a pergunta de quem sente que Deus demora. O Catecismo, no parágrafo 2589, nota que o crente dos salmos vive o desconforto de enfrentar “uma multidão de inimigos e de tentações” enquanto espera o que Deus fará.

Como rezar o Salmo 35

O Salmo 35 é para os dias em que alguém se sente injustiçado, caluniado ou traído.

  1. Leia o salmo inteiro e conte a Deus, com suas palavras, o que aconteceu.
  2. Pare nos versículos 13 e 14 e lembre que o salmista também tinha feito o bem.
  3. No versículo 23, entregue a causa a Deus.
  4. Termine com o versículo 28 e, se puder, com Romanos 12.21: “vence o mal com o bem”.

Outros salmos que falam de perseguição e confiança são o Salmo 27 e o Salmo 139, que também tem versículos duros explicados no contexto. Todos estão na categoria Salmos.

Perguntas frequentes

O Salmo 35 é o mesmo que o Salmo 34?

Em muitas Bíblias católicas, sim. Elas seguem a numeração grega e latina e trazem este texto como Salmo 34. Na Bíblia Livre e nas Bíblias de numeração hebraica, ele é o 35. Para conferir, veja se começa com “Disputa, SENHOR contra os meus adversários”.

O Salmo 35 é uma oração contra inimigos?

Sim, o texto pede que Deus enfrente os perseguidores e usa imprecações contra eles. Para os cristãos, essa linguagem deve ser lida junto com o ensinamento de não se vingar e de vencer o mal com o bem. O salmo não promete vitória sobre ninguém.

Por que um salmo pede que os inimigos sejam envergonhados?

Porque os salmos dão voz à revolta de quem sofre injustiça. João Paulo II explicou que essas imprecações afirmam a recusa do mal e a certeza de que Deus julga a injustiça. Para os cristãos, elas se leem junto com o ensinamento de não se vingar e de vencer o mal com o bem.

Quem é o “anjo do SENHOR” dos versículos 5 e 6?

No salmo, ele aparece como o enviado de Deus que afasta os perseguidores. A imagem expressa o pedido de que o próprio Deus intervenha na causa.

Jesus citou o Salmo 35?

No Evangelho de João, capítulo 15, versículo 25, Jesus diz que se cumpriu a palavra “Sem causa me odiaram”. Expressões parecidas estão no Salmo 35, versículo 19, e no Salmo 69, versículo 4.

O Salmo 35 é para católicos ou evangélicos?

Para os dois. O texto é o mesmo em todas as Bíblias, muda só a tradução e, em algumas, o número.

Fontes: Bíblia Livre, Salmo 35, eBible.org; Bíblia Livre, Salmo 69, eBible.org; Bíblia Livre, João 15, eBible.org; Bíblia Livre, Romanos 12, eBible.org; Bíblia Livre, licença e créditos, eBible.org; Bento XVI, audiência geral de 22 de junho de 2011, vatican.va; João Paulo II, audiência geral de 28 de março de 2001, vatican.va; João Paulo II, audiência geral de 5 de novembro de 2003, vatican.va; Catecismo da Igreja Católica, 2585-2589, vatican.va; Bíblia Livre, João, edição oficial em PDF, eBible.org; Nova Vulgata, numeração dos Salmos, vatican.va