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Pai Nosso: oração completa, versão católica e evangélica

Mãos de uma pessoa idosa unidas em oração sobre uma Bíblia fechada, numa mesa de madeira iluminada pela luz da janela
Imagem ilustrativa

O Pai Nosso é a oração que Jesus ensinou aos discípulos, registrada nos Evangelhos de Mateus e de Lucas. Católicos e evangélicos rezam quase o mesmo texto. A diferença mais visível está no fim: muitas igrejas evangélicas, como a IECLB, incluem o louvor ao reino, ao poder e à glória de Deus, enquanto a forma católica do Catecismo termina no pedido de libertação do mal.

Abaixo estão as duas versões, os dois textos da Bíblia de onde a oração vem e a explicação de cada diferença.

Pai Nosso católico

Esta é a forma que o Catecismo da Igreja Católica traz em português, no parágrafo 2759:

Pai Nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso Nome, venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal.

Oração tradicional, texto do Catecismo da Igreja Católica, 2759.

Fora da missa, ao fim da oração se diz “Amém”. O Catecismo explica que essa palavra quer dizer “assim seja” e que, com ela, a pessoa subscreve o que acabou de pedir (parágrafos 2856 e 2865).

Pai Nosso evangélico

Esta é a versão publicada pela Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, a IECLB, no Portal Luterano:

Pai nosso que estás nos céus. Santificado seja o teu nome. Venha o teu reino. Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dá hoje. E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores. E não nos deixes cair em tentação. Mas livra-nos do mal. Pois, teu é o reino, o poder e a glória, para sempre. Amém.

Oração tradicional, versão utilizada na IECLB.

A redação pode variar um pouco de uma igreja evangélica para outra. Na versão da IECLB transcrita aqui, aparecem o tratamento por “tu” e a doxologia final. Essa redação não representa todas as igrejas evangélicas.

As diferenças, uma por uma

“Vós” e “tu”

A versão católica trata Deus por “vós” (“que estais”, “vosso Nome”, “nos dai”). A versão da IECLB usa “tu” (“que estás”, “teu nome”, “nos dá”). As duas formas são respeitosas em português. A diferença vem da tradição de cada igreja, não do sentido da oração.

“Ofensas” e “dívidas”

O texto católico pede perdão das “ofensas” e fala em perdoar “a quem nos tem ofendido”. O evangélico da IECLB fala em “dívidas” e “devedores”, que é a palavra usada no Evangelho de Mateus. O Evangelho de Lucas, por sua vez, diz “pecados”. Na oração, essas palavras expressam o pedido de perdão a Deus e o compromisso de perdoar os outros.

“Não nos deixeis cair em tentação”

Aqui as duas versões concordam. Na Bíblia Livre, os verbos usados são conduzir em Mateus e pôr em Lucas, como se pode conferir nas transcrições abaixo. As orações tradicionais preferem “não nos deixeis (ou deixes) cair em tentação”.

O final: “pois teu é o reino”

É a diferença que mais chama atenção, e ela tem uma história longa, contada na seção seguinte.

De onde vem a oração: Mateus 6 e Lucas 11

O Pai Nosso aparece duas vezes na Bíblia. Em Mateus, faz parte do Sermão da Montanha, logo depois de Jesus dizer como não se deve orar:

7 E quando orardes, não façais repetições inúteis como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos. 8 Não sejais, pois, semelhantes a eles; porque vosso Pai sabe o que necessitais, antes que vós peçais a ele. 9 Vós, portanto, orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome. 10 Venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade, tanto na terra, assim como no céu. 11 O pão nosso de cada dia nos dá hoje. 12 E perdoa-nos nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores. 13 E não nos conduzas à tentação, mas livra-nos do mal; porque teu é o Reino, o poder, e a glória, para sempre, Amém.

Mateus 6.7-13.

Bíblia Livre (BLIVRE), © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, 2018, licença Creative Commons Atribuição 4.0 Brasil.

Em Lucas, a oração vem de um pedido dos discípulos e é mais curta:

1 E aconteceu que ele estava orando em um certo lugar. Quando terminou, lhe disse um de seus discípulos: Senhor, ensina-nos a orar, como João também ensinou a seus discípulos. 2 E ele lhes disse: Quando orardes, dizei: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. 3 Dá-nos cada dia nosso pão diário. 4 E perdoa-nos nossos pecados, pois também perdoamos a todo aquele que nos deve. E não nos ponhas em tentação, mas livra-nos do mal.

Lucas 11.1-4.

Bíblia Livre (BLIVRE), © Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, 2018, licença Creative Commons Atribuição 4.0 Brasil.

O Catecismo resume a diferença entre uma forma breve de Lucas, com cinco pedidos, e Mateus, com sete. A Bíblia Livre, baseada no Textus Receptus, traz acima uma forma ampliada de Lucas; a contagem de cinco pedidos não descreve essa transcrição. A tradição litúrgica da Igreja ficou com o texto de Mateus. A IECLB também indica as duas passagens, Mateus 6.9-13 e Lucas 11.2-4, como a origem da oração.

A história do “pois teu é o reino”

A Bíblia Livre inclui em Mateus 6.13 uma doxologia, um louvor final a Deus. O Catecismo distingue essa conclusão de louvor dos sete pedidos da oração.

O costume é muito antigo. O Catecismo, no parágrafo 2760, conta que bem cedo o uso litúrgico passou a concluir o Pai Nosso com uma doxologia. A Didaqué, um escrito cristão antigo, já trazia “Porque Vosso é o poder e a glória, pelos séculos”. As Constituições Apostólicas acrescentaram “o Reino” no início, e essa é a forma usada hoje na oração ecumênica.

A história litúrgica ajuda a entender por que o louvor pode aparecer junto da oração ou depois dela, conforme a tradição.

E na missa? O final católico

A Igreja Católica não ignora a doxologia; ela a coloca em outro lugar. Segundo o Catecismo (2760), na missa o Missal Romano amplia o último pedido, “livrai-nos do mal”, com uma oração que fala da espera da vinda de Cristo. Em seguida, a assembleia responde com uma aclamação que retoma a doxologia antiga.

Por isso, na missa, o Pai Nosso vai até “livrai-nos do mal”, vem essa oração e só então a assembleia diz o louvor ao Reino, ao poder e à glória. Fora da missa, a forma católica do Catecismo termina em “livrai-nos do Mal”, seguida do Amém. O passo a passo do terço mostra onde o Pai Nosso entra em cada mistério.

O Catecismo (2855) explica o sentido do final: os três títulos, reino, poder e glória, retomam os três primeiros pedidos da oração, agora em forma de ação de graças.

Como rezar o Pai Nosso com atenção

O próprio Evangelho de Mateus, logo antes da oração, rejeita a ideia de que falar muito garante ser ouvido. O Catecismo (2766) vai na mesma linha: Jesus não deixou uma fórmula para ser repetida de modo mecânico. Algumas formas simples de rezar com atenção:

  1. Reze devagar, uma frase por respiração.
  2. Pare depois de “o pão nosso de cada dia” e pense no que você precisa hoje.
  3. Antes de “perdoai-nos”, lembre de alguém que você precisa perdoar.
  4. Termine com “Amém”, ou com a doxologia, conforme sua tradição.

O Catecismo (2767) conta que as primeiras comunidades cristãs rezavam o Pai Nosso três vezes por dia. Ele cabe bem ao acordar e antes de dormir; a oração da manhã e a oração da noite mostram como ele pode entrar nesses momentos.

Perguntas frequentes

Qual é o Pai Nosso certo, o católico ou o evangélico?

Os dois vêm do mesmo texto bíblico. A versão católica segue a tradição da Igreja e, na missa, deixa a doxologia para a aclamação que vem depois. A versão da IECLB une a doxologia à oração. Nenhuma das duas está errada.

Católico pode rezar “pois teu é o reino”?

Pode. O Catecismo apresenta essa doxologia, explica o sentido dela e lembra que ela é a fórmula usada hoje na oração ecumênica. Na missa, ela aparece como aclamação da assembleia.

Por que alguns dizem “ofensas” e outros “dívidas”?

Mateus usa “dívidas” e Lucas usa “pecados”. A forma católica em português ficou com “ofensas”. Todas falam do perdão que pedimos a Deus e oferecemos aos outros.

Onde está o Pai Nosso na Bíblia?

Em Mateus 6.9-13 e em Lucas 11.2-4. A versão de Mateus é a base das duas formas tradicionais apresentadas aqui.

O que quer dizer “santificado seja o vosso nome”?

É o primeiro pedido: que o nome de Deus seja reconhecido como santo. O Catecismo (2855) conta esse pedido entre os três primeiros, que falam de Deus antes de falar das nossas necessidades.

Fontes: Catecismo da Igreja Católica, 2759-2865, vatican.va; IECLB, Pai-Nosso: versão utilizada na IECLB, Portal Luterano; Bíblia Livre, Mateus 6, eBible.org; Bíblia Livre, Lucas 11, eBible.org; Bíblia Livre, licença e créditos, eBible.org